FLUSSERBRASIL
Samson Flexor
BIOGRAFIA
BIOGRAPHY

Amo a língua. Amo sua beleza, sua riqueza, seu mistério e seu encanto. Só sou verdadeiramente quando falo, escrevo, leio ou quando ela sussurra dentro de mim, querendo articular-se. Mas também porque ela é forma simbólica, morada do Ser que vela e revela, vereda pela qual me ligo aos outros, campo de imortalidade aere perennius, matéria e instrumento da arte. Ela é meu compromisso, através dela concebo minha realidade e por ela deslizo rumo ao seu horizonte e fundamento, o silêncio do indizível. Ela é minha forma de religiosidade. É, quiçá, também a forma pela qual me perco.

Vilém Flusser

 

 

Vilém Flusser nasce numa família judia em Praga, na então Tchecoeslováquia, em 12 de maio de 1920.  A vida de Flusser se confunde com a do país, criado em 1918, dois anos antes de ele nascer, e dividido em dois, a República Tcheca e a Eslováquia, na Separação de Veludo, apenas um ano depois de ele morrer, em 1991.

Sua família vem de uma pequena cidade da Boêmia, no interior do país. Seu pai brinca: a Boêmia é o centro da Europa; a vila em que vivem é o centro da Boêmia; na praça central há um lampião; portanto, se olham para o lampião, veem o centro do mundo.

O pai de Vilém, Gustav Flusser, é membro do Partido Socialista e professor de matemática na Karls-Universität. Sua mãe, Melitta, fala melhor o tcheco do que o alemão e usa os nomes no diminutivo. Em 1931, Flusser passa a estudar no Smichovo Gymnasium. Em 1939, entra na universidade. A invasão alemã, porém, muda toda a sua vida e a da sua família.

Em março de 1939 Hitler chega em Praga. Nesse mesmo mês, Vilém foge junto com Edith Barth, namorada desde a infância, na direção da Inglaterra. Na fuga, acompanhado por apenas dois livros – o Fausto de Goethe e um livro de preces judeu –, Vilém é retido na fronteira da Holanda.

O sogro contrata um comando de advogados para, com muito dinheiro, resgatá-lo e levá-lo para a Inglaterra, escondido no porta-malas de um carro. Na Inglaterra, Flusser se apresenta como combatente, mas não o aceitam por ter saúde frágil e não enxergar de um dos olhos.

Vilém estuda economia e lê muito, mas é atormentado pelos bombardeios alemães. Paris cai. Vilém, Edith e os sogros decidem vir para o Brasil, onde chegam em agosto de 1940.

Na chegada, nas docas do Rio de Janeiro, recebem dos judeus que aqui estavam a notícia de que o pai dele havia morrido em um campo de concentração tcheco. A mãe e a irmã mais nova, com 12 anos de idade, morreriam em 1942, em Auschwitz.

Vilém e Edith se casam no Rio de Janeiro, mudando-se em seguida para a cidade de São Paulo, onde nascem os seus três filhos: Dinah, diplomata, hoje morando em Nova York com Edith; Miguel Gustavo, empresário na área de informática em São Paulo; Victor, músico e professor de música na Universidade de Strasburgo e Sélestat.

Naturalizado brasileiro, Flusser trabalha com o sogro na UNEX, uma empresa de importação e exportação, e depois cria a IRB (Indústrias Radioeletrônicas do Brasil Ltda), enquanto prossegue seus estudos autodidatas. Tanto ele quanto Edith não podem frequentar a universidade brasileira porque teriam de refazer a escolaridade desde o antigo primário. As escolas de Praga não são reconhecidas em São Paulo.

É comum encontrar Flusser na fila de um banco paulista tão imerso em seus pensamentos que, quando chega a sua vez, ele não sabe onde se encontra nem o que veio fazer ali. Nos muitos momentos de impaciência, joga paciência e xadrez (quando se concentra tanto que não escuta ninguém).

Usa às vezes dois pares de óculos, como mostra a foto mais divulgada na internet (tirada por Edith no jardim da casa de Robion), mas enxerga por apenas um dos olhos – desde menino tem comprometida a visão do outro olho.

Por conta do trabalho, vive em 1950 e 1951 no Rio de Janeiro. Ao final da década de 50 tenta abandonar toda atividade prática para dedicar-se à vida intelectual. Segundo Miguel, seu filho, vende a IRB por "um cacho de bananas".

Lê os livros emprestados pelo amigo também tcheco, Alex Bloch, que trabalha em uma livraria. Consta que não compra livros e não frequenta livrarias. Lê os que são dados ou emprestados ou os que estejam à mão, sem muita seleção: o que cair na rede é peixe, quer dizer, livro. 

No entanto, absorve com facilidade as leituras graças à memória excepcional. Declama peças inteiras de Shakespeare, primeiro em inglês e depois em português, sem errar um verso. Declama todo o Fausto de Goethe inteiro, em alemão. Enquanto Edith dirige nas viagens, Vilém canta a seu lado óperas inteiras, fazendo a voz de todos os personagens.

Datilografa sempre na máquina de escrever portátil. Ganha de presente do filho Miguel uma máquina de escrever elétrica, mas continua preferindo a sua velha máquina portátil, pela combinação do silêncio entre as teclas que pressiona e o ato físico de retornar o carro da esquerda para a direita, pontuando os pensamentos e dando os intervalos corretos à composição do seu texto. 

O filósofo depende da resistência das teclas. Acredita que, com a máquina de escrever, o escritor é  mais responsável. Datilografa com duas cópias de papel carbono em espaço 1 de margem a margem da folha, batendo cerca de 400 palavras por página. Se precisa revisar, o que acontece poucas vezes, reescreve do princípio e em outra língua.

Seu primeiro artigo sobre filosofia da linguagem aparece em 1957. Na década de 60 acostuma-se a receber os amigos e os amigos da filha no seu terraço, na rua Salvador de Mendonça, em São Paulo.

Alguns amigos o ajudam: Vicente Ferreira da Silva o leva para o Instituto Brasileiro de Filosofia, Alfredo Mesquita o convida para ser professor da Escola de Arte Dramática e Décio de Almeida Prado o chama para escrever no jornal O Estado de São Paulo.

No início dos anos 60, sem qualquer diploma de graduação, leciona teoria da comunicação na FAAP e filosofia da linguagem no Departamento de Humanidades do Instituto Tecnológico da Aeronáutica, em São José dos Campos, a convite de Leônidas Hegenberg.

Em 1963, publica o seu primeiro livro, Língua e realidade. Dele se seguiriam mais de 30 livros, traduzidos em mais de 20 línguas, todos eles dedicados a Edith, sua esposa e também sua primeira e mais importante leitora. Os filhos acreditam que ele sequer escreveria se não fosse ela e se não o fizesse para ela.

Em 1967, torna-se professor de filosofia da ciência na Universidade de São Paulo. No mesmo ano, por seis meses representa o Brasil, a convite do Itamaraty, numa viagem de conferências sobre a filosofia brasileira nos Estados Unidos e na Europa.

Em 1972, assina a coluna diária “Ponto Zero” no jornal Folha de São Paulo. Ainda nesse ano, decide sair do Brasil e migrar de volta à Europa, passando um tempo em Merano, na Itália, até estabelecer-se em Aix-en-Provence e depois em Robion, na França.

Vilém Flusser sai do Brasil porque vê a esperança se encolher no horizonte. Enxerga no mito do progresso, encarnado pelo slogan militar “ninguém segura esse país”, a realização do ódio ao mundo, ao tempo e aos deuses. Segundo ele, vivemos num mundo de andaimes, seres alienados em oposição ao mundo e ao instante.

Visita o Brasil com regularidade. Nas décadas de 70 e 80, seus ensaios são publicados em revistas de todo o mundo. Em 1991, recebe convite para proferir conferência no Instituto Goethe de Praga. Pensa em escolher o tema “o perigo dos nacionalismos”, mas opta por “mudança de paradigma”. Na conferência, empolga-se a ponto de alternar o tcheco, o alemão e o português sem perceber.

No dia seguinte, ele e Edith acordam para voltar à Alemanha, porque Vilém tem uma consulta no oculista. Ao tomarem o carro no meio de forte neblina, batem em um caminhão branco parado na estrada.

Edith sobrevive, mas Vilém Flusser morre no acidente, na cidade em que nasceu, no dia 21 de novembro de 1991. A sua pedra tumular, no cemitério judaico de Praga, contém uma inscrição em três idiomas: em hebraico, em tcheco, e em português.

Edith morre em setembro de 2014, em Nova York.


I love language. I love its beauty, its richness, its mystery and charm. I only really am when I speak, write, read or when language whispers inside me, yearning to articulate. But also because it is symbolic form, where the Being dwells, veiling and revealing ; it is the path through which I connect to others, the field of immortality aere perennius, the subject and instrument of art. It is my commitment, it is through it that I conceive my reality and through it do I slide toward its horizon and foundations, the silence of the unspeakable. It is my form of religiosity. It is, perhaps, also the way in which I lose myself.
Vilém Flusser
 
 
Vilém Flusser was born into a Jewish family in Prague, then Czechoslovakia, on 12 May 1920. His life is intertwined with the country’s own life, a nation born in 1918, two years before his birth, and divided into two, the Czech Republic and Slovakia, the Velvet Divorce, just a year after he died in 1991.

His family comes from a small town in Bohemia, in the countryside. His father had a witticism: Bohemia, he said, is the center of Europe; their village is the center of Bohemia; in the central square there is a lamp; therefore, you look at the lamp and you see the center of the world.

Vilem's father, Gustav Flusser, was a member of the Socialist Party and a professor of mathematics at  the Karls-Universität. His mother, Melitta, spoke better Czech than German and used proper names all in the diminutive. In 1931, Vilem went to study in the Smichov Gymnasium and in 1939 he entered the university. Then, there was the German invasion, which changed his and his family’s life.
 
In March 1939 Hitler arrived in Prague. That same month, Vilem fled towards England along with Edith Barth, his girlfriend since childhood. On the trail, taking only two books - Goethe's Faust and a book of Jewish prayers - Vilem was detained at the border of Holland.

The father- in-law hired a commando of lawyers who, with much money, rescued him and took him to England, hidden in the trunk of a car. Once there, Flusser tried to enroll as a soldier, but was not accepted due to his poor health and one defective eye.

Vilém studied economics and read a lot, but was distressed by the German bombers. Paris fell and Vilém, Edith and her parents decided to come to Brazil, where they arrived in August 1940.

On arrival at the docks of Rio de Janeiro, the Jews who were here gave him the news that his father had died in a Czech concentration camp. His mother and his 12-years old sister would die in 1942, in Auschwitz.

Vilém and Edith got married in Rio de Janeiro and moved to the city of São Paulo, where their three children were born: Dinah, a diplomat, now living in New York; Miguel Gustavo an entrepreneur in information technology in São Paulo; and Victor, a musician and professor of music at the University of Strasbourg and Sélestat.

Flusser acquired Brazilian nationality and worked with his father-in-law at UNEX, an import and export company, and then created IRB (Radio-electronic Industries of Brazil), while continuing his autodidactic studies. Both he and Edith could not attend the Brazilian university because they would have to go back to primary school because their Prague certificates of education were not valid in São Paulo.

One could find Flusser in a queue at a bank, but so deep in thought that when it was his turn at the cashier, he did not know where he was or what he was doing there. And when he was impatient with people, he used to play solitaire or chess (and got so focused that he did not hear anyone around).

Sometimes he wore two pairs of glasses, as shown in the photo published on the internet (taken by Edith in the garden of their Robion house), but only one of his eyes was functional, since his childhood.

Because of his work, he lived in Rio de Janeiro between 1950 and 1951. At the end of the 50s he tried to abandon all practical activity to become dedicated to an intellectual life. According to his son Miguel, “he sold IRB for peanuts”.

He read the books that he borrowed from his friend, Alex Bloch, another Czech, who worked in a bookstore. Reportedly, he did not purchase books and did not attend bookstores. He read what was are given or lent to him, or what was at hand, without much selection: for him, a book was always a book.

However, he easily absorbed his readings due to an exceptional memory. He recited entire Shakespeare plays, first in English and then in Portuguese, without missing a single verse. He declaimed all of Goethe's Faust, in German. In trips by car, while Edith drove, Vilem would sing entire operas, producing the voice of each of the characters.
 
He always typed his texts on a portable typewriter. And when his son Miguel gave him a new electric model, he still preferred his old portable; the combination of the silence between the tapping of keys and the physical act of returning the carriage from left to right punctuated his thoughts and gave the intervals for the correct composition of his text.
 
This philosopher relied on the resistance of his typing keys. He believed that using a typewriter made a writer more responsible. He typed using carbon paper between two sheets, keeping a 1.0 space between lines and using the full width of the page. He wrote about 400 words per sheet. If he needed to review the text (which seldom happened), he would rewrite from the start, and in another language.

His first article on the philosophy of language appeared in 1957. In the 60s he used to gather his friends and his daughter’s friends in his terrace, on Salvador de Mendonça Street, in São Paulo.

Some of these friends assisted Flusser: Vicente Ferreira da Silva took him to the Brazilian Institute of Philosophy, Alfredo Mesquita invited him to teach at the Drama School, and Decio de Almeida Prado asked him to write in the newspaper O Estado de São Paulo.  In the early 60s, with no undergraduate degree, he taught Theory of Communication at FAAP University, and Philosophy of Language in the Department of Humanities of the Technological Institute of Aeronautics, in São José dos Campos, at the invitation of Leonidas Hegenberg.

In 1963, he published his first book, Language and Reality. More than 30 books would follow, translated into over 20 languages, all of them dedicated to Edith, his wife and also his first and most important reader. His children believe that he wouldn’t have written anything at all, if not for her.

In 1967, he became a professor of Philosophy of Science at the University of São Paulo. For six months in that year, Flusser represented Brazil at the invitation of the Foreign Ministry, on a trip around the United States and Europe, for conferences on Brazilian Philosophy.

In 1972, Flusser wrote the daily column "Ground Zero" (Ponto Zero) in the newspaper Folha de São Paulo. Later that year he decided to leave Brazil and migrate back to Europe, spending time in Merano, Italy, and then settling in Aix-en-Provence and finally in Robion, France.

Flusser left Brazil because he saw his hopes shrivel on the horizon. He saw the consolidation of hatred towards the world, towards time and towards the gods, in the myth of progress embodied by the military slogan nobody holds back this country. According to him, we live in a world of scaffolding, being alienated and in opposition to the world and to the present instant.

Flusser regularly visited Brazil, though. And in the 70s and 80s, his essays were published in magazines around the world. In 1991, he received an invitation to give a lecture at the Goethe Institute, in Prague. As a topic for that conference, he considered choosing “the danger of nationalisms”, but opted for “a paradigm shift”. At the conference, he became excited to the point of becoming unaware that he was switching from Czech, to German to Portuguese.

The next day, he and Edith agreed to return to Germany because Vilem had an appointment at an optician. They took the car in the middle of heavy fog. They hit a white truck that had stalled on the road.

Edith survived but Flusser died in the accident in the town where he had been born on 21 November 1991. His gravestone in the Jewish cemetery of Prague, contains an inscription in three languages: Hebrew, Czech, and Portuguese.

Edith died in September 2014, in New York.